Às vezes acordo fechada para o Sol que o dia oferece. Tranco-me, dia de janelas fechadas. O escuro acolhe e protege meu coração de toda luz que possa expor minha dor. Tem gente que me acha louca, alguns devem me achar doente, mas é como cuido de mim.
Hoje me acalmei fazendo alguns “jogos dos 7 erros” na revista. Achei até graça.
Sabe que já fui péssima nisso? Hoje encontrei todos os erros, quatro cenários. Bastou analisar cuidadosamente. Acho que era isso que eu não conseguia antigamente. Olhar uma situação, uma mulher batendo uma massa de bolo na cozinha enquanto seu marido pega o leite na geladeira, por exemplo, e enxergar muito mais do que apenas isso. Essa cena vai além do que nossos olhos veem e uso o jogo dos 7 erros como inspiração para lembrar tudo o que envolve esses momentos simples do nosso cotidiano. Olhando superficialmente, conseguimos nos esquivar de enxergar muita coisa. Encontrei teias de aranha nos armários da minha cozinha.
Ontem minha irmã me mostrou um par de meias que havia comprado para o seu marido. Lembrei do trabalho que dava separar todas as meias pretas e azul-marinho do meu ex-marido. Às vezes deixava para o dia seguinte, para separá-las à luz do Sol. Quanto sentimento me veio à tona quando lembrei dessa rotina de separar meias. Além das cores, que eram bem parecidas se vistas no escuro, tinha os modelos diferentes, desenhos pequenos, detalhes discretos, difíceis de identificar com um olhar cru. Tomava também o cuidado de não juntar um pé de uma meia mais velha com outro de uma nova, quando eram idênticas. Há dias para meias velhas e dias para as novas.
Essas lembranças, pedaços de mim.
Hoje pela manhã tomei chá de camomila, sugestão de um amigo para um dia mais tranquilo. Antes de terminar minha primeira refeição já havia discutido com esse mesmo amigo, que ao saber que eu estava seguindo seu conselho, insistiu em ir mais fundo na sua tentativa de me ajudar com minhas emoções. Isso me irritou. Não há chá de camomila que dê conta de suportar a dor de ter tocada uma ferida.
Assim eu voltei para o quarto escuro. Aproveitei as janelas ainda não abertas e a cama desarrumada. Esse amigo tem insistido em me ajudar e isso acaba revelando minhas fraquezas, o que traz uma mistura de medo e raiva, uma insegurança enorme. No entanto, tenho seguido seus conselhos à risca e tenho vivido melhor. Depois de discutir com ele hoje cedo, deitei e ouvi uma música relaxante que ele havia sugerido. Dormi. Irônico, pois toda a discussão começou exatamente quando ele fazia sugestões para melhorar meu sono. “Não se intrometa na minha insônia", eu disse.
No meu quarto escuro passei a maior parte do dia. Ouvi música, li, relaxei. Li na revista deste mês uma matéria que falava sobre como lidar com nossos erros. Humildade. Era mais um recado para eu aceitar a ajuda desse meu amigo, mesmo querendo que ele nunca tivesse descoberto minhas fraquezas. A reportagem foi bem clara, não queremos que o outro veja que não somos capazes de acertar em tudo. Eu queria ter dito à ele: "Espera aí, por que não falamos sobre cinema? Tem um filme ótimo em cartaz que gostaria que assistíssemos juntos”.
Doeu. Ele me despiu, me constrangeu, mas no final acabou por me fazer bem e meu carinho por ele só aumentou. Abri as janelas do meu coração para uma vida nova. Vou deixar o Sol entrar.
Ai, que lindo, Ká... Amei. Você sabe que escreve bem... Deu até vontade de deixar o Sol entrar por aqui... A gente conhece uma à outra e você sabe que estou numa daquelas fases em que o Sol nascer fazendo o dia lindo é quase uma afronta... Como o dia pode ter direito de ser lindo quando dentro de mim só tem trovoada e tempestade?
ResponderExcluirDeu vontade de pedir pra você me contar todos esses conselhos que você recebeu... E de ler a "Vida Simples" deste mês, que chegou ontem e também vai me ajudar... Outro presente seu, além destas palavras lindas daqui que realmente me fazem respirar com o peito mais leve.
Obrigada, amiga.Hoje e sempre.
Que bom que você gostou Fê! Minha primeira fã!!! rs
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