quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os anos de separação

Anos se passaram e no coração dele era como se apenas um minuto o distanciasse da tragédia que quase o matou de tanto sofrimento.
Brigaram como se tudo tivesse acabado de acontecer e ela se sentiu como se tivesse levado uma surra após ouvir dele tantos gritos, depois de vê-lo questionando tanto a razão pela qual ela o deixara, anos atrás.
Mesmo ele tanto tendo implorado, mesmo com tantas promessas de não errar mais, de amar mais, perdoar mais, compreender mais, ceder mais, ela não deu outra chance a esse grande amor. Virou as costas e seguiu sua vida, cansada.
Ontem eles brigaram como se nenhum  dia tivesse passado durante esses dez anos que os separaram enquanto eles apenas se procuraram por aí.
Ele fez a ela todas as perguntas que tanto pertubaram seu coração e ela sofreu porque não tinha respostas a altura do perdão que ela tanto queria implorar que ele concedesse.
Como ela seria capaz de dizer as palavras simples que ela guardou para revelar a ele, se sua dor havia sido tão grande, tão injusta, tão cruel? Nada do que ela tenha ensaiado para dizer, nem o tom mais suave de sua voz pareciam estar a altura desse grande homem que sofreu por amá-la e não tê-la.
Ela se sente tão pequena diante de seus questionamentos, nem ela acha justo o real motivo da separação, mas o motivo não pode ser mudado, ele existiu como foi, ela não pode inventar outro.
O grito de Ricardo nem chega a ser de raiva. É apenas um homem que a amou sinceramente durante todos os anos em que não conseguiu perdoá-la. Ontem ele conseguiu gritar e culpá-la por ter construído sua vida sem ela. Sim, ele a culpou por cada fim de semana em que não estiveram juntos, por todas as viagens em que ele quis tê-la por perto e ela nâo estava lá, pelo casamento, pela família que ele constituiu sem ela. “E agora?” Ele disse. “Agora tenho que largar tudo como se a culpa tivesse sido minha!!! Você saiu da minha vida, eu apenas a construí sem você porque você não quis estar aqui.” Mas ela não tinha resposta.
A raiva dele era como se quisesse voltar no tempo, exigir que ela não tivesse jamais deixado de amá-lo, querer que ela não tivesse ido embora, como se fosse realmente possível reconstruir tudo exatamente de onde foi interrompido, exatamente do ponto onde seu coração parou e não conseguiu se afastar por dez anos.
E ela nem sabe como dizer que o procurou durante todos esses anos. Ela gostaria que ele até se sentisse vingado, que sua dor se acalmasse ao saber que ela jamais foi feliz sem o seu amor, que vê-lo morando distante com outra mulher e filho fere seu coração diariamente. É como se a vida gritasse a todo momento mostrando tudo o que ela perdeu. Ela jamais vai conseguir explicar porque jamais foi capaz de entender como pôde ter desejado se afastar dele sem nunca ter deixado de amá-lo. “O que vou dizer para que ele acredite que nunca foi ausência de amor?” Ela se sente tão idiota com suas justificativas praticamente vazias. Nada nunca vai se comparar à dor que ele sentiu. Nunca ela vai esquecer o quanto ele implorou, o quanto chorou, o quanto emagreceu por seu amor enquanto ela apenas se afastava.
Agora ela quer seu lugar de volta??
Sim, ela quer seu lugar de volta. Ela quer que ele dê um jeito, qualquer jeito, mas leve-a com ele para sempre. Ela não é capaz de viver sem seu amor, nunca foi e agora que ela sabe que ele a ama, agora que eles se reecontraram, ela não sobrevive um minuto sem a angustia de seu corpo, seu coração, seus pensamentos, sem sofrer por sua ausência.
Ela sabe que é a única culpada. Não importam os motivos que ele tenha dado para que ela desejasse se separar dele lá atrás. Agora ela sabe que sem ele há apenas infelicidade.
E ele quer ficar com ela, ele quer amá-la, quer reconstruir tudo com ela, mas não sabe se isso é possível e por isso ontem ele a xingou, com suas palavras ele a surrou.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Não Fiquei Com Nenhuma Foto Sua

Não fiquei com nenhuma foto sua
Diz a primeira linha da primeira carta que escrevi sobre você
Te procuro em mim

Não fiquei com nenhuma foto sua
Eu pensava enquanto te olhava assistindo ao teatro
Você cruzou e descruzou os braços
Afastou-se da cadeira, sorriu
Eu te fotografei

Não fiquei com nenhuma foto sua
Não cansei de te olhar
Te observei como eu teria feito durante todos os dias em que esteve ausente
Se eu tivesse ficado com alguma foto sua

Chorei noites inteiras. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Do Meu Quarto Escuro ao Sol

Às vezes acordo fechada para o Sol que o dia oferece. Tranco-me, dia de janelas fechadas. O escuro acolhe e protege meu coração de toda luz que possa expor minha dor. Tem gente que me acha louca, alguns devem me achar doente, mas é como cuido de mim. 
Hoje me acalmei fazendo alguns “jogos dos 7 erros” na revista. Achei até graça.  
Sabe que já fui péssima nisso? Hoje encontrei todos os erros, quatro cenários. Bastou analisar cuidadosamente. Acho que era isso que eu não conseguia antigamente. Olhar uma situação, uma mulher batendo uma massa de bolo na cozinha enquanto seu marido pega o leite na geladeira, por exemplo, e enxergar muito mais do que apenas isso. Essa cena vai além do que nossos olhos veem e uso o jogo dos 7 erros como inspiração para lembrar tudo o que envolve esses momentos simples do nosso cotidiano. Olhando superficialmente, conseguimos nos esquivar de enxergar muita coisa. Encontrei teias de aranha nos armários da minha cozinha. 
Ontem minha irmã me mostrou um par de meias que havia comprado para o seu marido. Lembrei do trabalho que dava separar todas as meias pretas e azul-marinho do meu ex-marido. Às vezes deixava para o dia seguinte, para separá-las à luz do Sol. Quanto sentimento me veio à tona quando lembrei dessa rotina de separar meias. Além das cores, que eram bem parecidas se vistas no escuro, tinha os modelos diferentes, desenhos pequenos, detalhes discretos, difíceis de identificar com um olhar cru. Tomava também o cuidado de não juntar um pé de uma meia mais velha com outro de uma nova, quando eram idênticas. Há dias para meias velhas e dias para as novas. 
Essas lembranças, pedaços de mim. 
Hoje pela manhã tomei chá de camomila, sugestão de um amigo para um dia mais tranquilo. Antes de terminar minha primeira refeição já havia discutido com esse mesmo amigo, que ao saber que eu estava seguindo seu conselho, insistiu em ir mais fundo na sua tentativa de me ajudar com minhas emoções. Isso me irritou. Não há chá de camomila que dê conta de suportar a dor de ter tocada uma ferida. 
Assim eu voltei para o quarto escuro. Aproveitei as janelas ainda não abertas e a cama desarrumada. Esse amigo tem insistido em me ajudar e isso acaba revelando minhas fraquezas, o que traz uma mistura de medo e raiva, uma insegurança enorme. No entanto, tenho seguido seus conselhos à risca e tenho vivido melhor. Depois de discutir com ele hoje cedo, deitei e ouvi uma música relaxante que ele havia sugerido. Dormi. Irônico, pois toda a discussão começou exatamente quando ele fazia sugestões para melhorar meu sono. “Não se intrometa na minha insônia", eu disse. 
No meu quarto escuro passei a maior parte do dia. Ouvi música, li, relaxei. Li na revista deste mês uma matéria que falava sobre como lidar com nossos erros. Humildade. Era mais um recado para eu aceitar a ajuda desse meu amigo, mesmo querendo que ele nunca tivesse descoberto minhas fraquezas. A reportagem foi bem clara, não queremos que o outro veja que não somos capazes de acertar em tudo. Eu queria ter dito à ele: "Espera aí, por que não falamos sobre cinema? Tem um filme ótimo em cartaz que gostaria que assistíssemos juntos”.
Doeu. Ele me despiu, me constrangeu, mas no final acabou por me fazer bem e meu carinho por ele só aumentou. Abri as janelas do meu coração para uma vida nova. Vou deixar o Sol entrar. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Não fiquei com nenhuma foto sua.
Em minhas lembranças, não sei qual pedaço seu é meu.
Não ouço sua voz. Quero, mas não ouço.
No meu silêncio, suspiro sua falta.
Quando chegamos juntos ao mesmo lugar, eu te vi como havia desejado: lindo, sorridente e apaixonado por mim.
Na sua ausência, o tempo parece que para, quando percebo que nada do que acontece à minha volta move meus sentimentos, e parece que voa, quando sinto que já desapareci da sua vida.
O seu silêncio constrói uma eternidade entre nós.
Por temer que meus medos tenham razão, antecipo a desgraça que sentirei em meu coração quando eu me der conta de que você realmente não voltou.
Temer me faz agarrar cada detalhe de nós dois.
Você faminto e feliz comendo sanduíche com katchup no café da manhã. O dia mais lindo já vivido por nós não tinha sol.
Minha ansiedade me machuca e imobiliza enquanto tento entender por que você apareceu. 
Por que você sumiu?
Você tem três cachorros, eu duas gatas. Toca piano, eu escrevo. Acorda cedo, eu ao meio dia. Corre enquanto eu sinto preguiça.
Rezo para que não tenha percebido minha imperfeição.
Comprei um vestido novo e mudei de perfume para você. Ensaiei conversas agradáveis, cheias dos assuntos de que você mais gosta. Só sento ao sofá com as pernas dobradas de lado, pés para fora do estofado, como te agrada. Não me exponho ao sol para que minha pele esteja clara como você gosta, do jeito como a conheceu, quando voltar. Estou lendo os colunistas que me indicou e até mesmo o livro que não gostou. Quero ver de novo seu sorriso feliz em me ter por perto, ouví-lo dizer que não há mulher mais linda no mundo.